Fogão a lenha adiciona uma pitada gostosa de interior na decoração moderna

A peça volta a ganhar espaço em casas e apartamentos, só que, desta vez, repaginada em projetos contemporâneos

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postado em 13/04/2015 14:54 / atualizado em 13/04/2015 15:02 Joana Gontijo /Lugar Certo
Projeto da designer Fabiana Visacro: cara da mineiridade, o fogão a lenha expande as possibilidades de uso na arquitetura e na decoração - Cátia e Mazarelo/Divulgação Projeto da designer Fabiana Visacro: cara da mineiridade, o fogão a lenha expande as possibilidades de uso na arquitetura e na decoração


"Fim de semana na casa dos avós, lá no interior. Todos acordam bem cedo, junto com o galo, dono do galinheiro. O cheiro é de café novo, fumaça de lenha e prosa. (…) No canto da parede as brasas já brilham o vermelho do fogo. (...) As pessoas se juntam ao redor, os rostos vão ficando corados e alma se aquece. É o aconchego do fogão a lenha." A crônica do almenarense Camilo Durante de Assis traduz o sentido íntimo da cozinha para o mineiro, uma espécie de compasso que marca o dia, anuncia o passar sensível das horas e celebra o encontro de todos.

Na essência desse suave movimentar, o fogão a lenha protagoniza o ambiente desde tempos remotos, por aqui em em todo país, fornecendo com apreço o alimento, mas também estabelecendo relações de convívio, trocas e afetos. Na realidade atual, cheia de aparatos eletrônicos e luzes azuladas, ele volta à cena doméstica repaginado, aparece nos projetos contemporâneos em diversas roupagens para fazer o morador se reconectar a uma época ancestral e, sem correria, reunir amigos e parentes para compartilhar.

Na ambientação do espaço gourmet de uma residência, a arquiteta Fernanda Neiva usou um fogão a lenha em aço fundido, com churrasqueira acoplada, para agradar a proprietária, amante da cozinha - Cátia e Mazarelo/Divulgação Na ambientação do espaço gourmet de uma residência, a arquiteta Fernanda Neiva usou um fogão a lenha em aço fundido, com churrasqueira acoplada, para agradar a proprietária, amante da cozinha


Para as designers Cátia Carneiro e Mazarelo Carneiro, o fogão a lenha tem sempre um apelo familiar, que vem do sentido da convivência, do agrupamento e, claro, da boa comida. Hoje, explicam, ele consegue entrar em praticamente todos os tipos de composição decorativa, já que agora é encontrado em vários modelos, dos mais rústicos aos modernos, e com opções de receber o acabamento ao gosto do cliente. "Existem peças de ferro, tijolinho, aço fundido, alvenaria, esmaltadas e com diversas formas de finalização, do inox, o ladrilho hidráulico ao barro", elucidam.

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Com a ressignificação da cozinha na casa do século 21, os lugares onde o fogão a lenha pode ser inserido são novamente valorizados, e ele cabe bem em espaços gourmet, coberturas e varandas, por exemplo. "Vivemos um momento de resgate de tradições, de reconhecimento da gastronomia mineira, marcada fortemente pela cozinha a lenha. Com o fogão, os cômodos são criados para receber, cozinhar e experimentar as variadas comidinhas, nos remetendo a princípios culturais", pontuam Cátia e Mazarelo.

Na composição assinada por Cátia e Mazarelo Carneiro, a casa repleta de símbolos, artesanato e peças feitas pela moradora ganha um tom de convite e aconchego com o fogão a lenha - Cátia e Mazarelo/Divulgação Na composição assinada por Cátia e Mazarelo Carneiro, a casa repleta de símbolos, artesanato e peças feitas pela moradora ganha um tom de convite e aconchego com o fogão a lenha


Criando uma atmosfera de aproximação e acolhimento, na opinião da designer de interiores Fabiana Visacro o fogão a lenha agrada quem aprecia ter intervalos de comunhão entre os que se gostam e procura qualidade de vida dentro de casa. Um elemento muito comum nas residências antigas, principalmente no interior, para Fabiana o fogão a lenha é a cara da mineiridade com sua forma de bem recepcionar as visitas, mas atualmente expande as possibilidades de uso na arquitetura e decoração e, dependendo da harmonização com o que está em volta, o resultado estético do ambiente muda. "Geralmente é preciso dar atenção ao espaço de circulação ao redor do fogão, que não pode ser muito pequeno, mesmo considerando que existem modelos compactos. Como ele é um volume de peso, e acompanha muitas vezes a churrasqueira, um forno de pizza, um frigobar ou uma bancada, acho que manter o restante da composição mais neutra é uma boa dica. Nos demais elementos, pensar nos móveis, luminárias, cores, obras de arte ou itens de design arrojado, é o que vai definir o tom do projeto", explica Fabiana.

O engenheiro Rogério Miranda desenvolveu uma versão sustentável do fogão a lenha e produz 50 unidades por mês - Beto Novaes/EM/D.A Press O engenheiro Rogério Miranda desenvolveu uma versão sustentável do fogão a lenha e produz 50 unidades por mês


Segundo a arquiteta Fernanda Neiva, a preferência é que o fogão a lenha esteja em uma área externa ou um local interno com bastante ventilação. Para quem gosta de se arriscar nas panelas, mexer com fogo e ver o tempo passar, em suas palavras, o equipamento é querido. "O fogão a lenha traz uma lembrança das nossas origens, de como se cozinhava antigamente, e isso pode ser reconfortante nos dias de hoje", diz.

De acordo com Rogério Miranda, de 53 anos, fundador da ONG Prolenha e da Ecofogão, que comercializa fogões a lenha ecologicamente corretos, cerca de 1 milhão de famílias utilizam este tipo de fogão no estado e mais de 7 milhões no Brasil. Ele explica que, nas últimas décadas, paralelamente ao fenômeno de valorização da tradição rural brasileira, e principalmente em Minas Gerais, o produto reconquista o lugar nas cozinhas das classes média e alta, tanto em espaços urbanos, como apartamentos, como em sítios e condomínios. O original fogão a lenha que deixava as paredes enegrecidas retorna com tecnologias avançadas, já é encontrado pré-fabricado e não faz a cozinha ficar repleta de fumaça.

Cátia e Mazarelo/Divulgação


Preocupado com o caráter primitivo das peças e a utilização incorreta que gera alto consumo de lenha e muita poluição, a nível doméstico, essencialmente em famílias economicamente menos favorecidas, o engenheiro florestal desenvolveu uma versão sustentável do fogão a lenha, em um trabalho que tem sua origem há 25 anos e deu novo significado à sua própria vida. Hoje à frente da Ecofogão com a sócia Cecília Mendoza e o parceiro Emílio Miranda, Rogério criou os modelos iniciais durante os dez anos que morou na América Central, onde os fogões utilizados ainda eram extremamente defasados. "Como engenheiro florestal, me preocupava que os fogões tradicionais gastavam mais de três quilos de lenha por hora, chegando até a 20 quilos de lenha por dia, além de produzir muita fumaça. Parti do princípio que, ao usar a lenha para cozinhar, o que queremos de verdade é a energia, o calor, e não a fumaça", explica.

Em conjunto com Larry Winiarsky, um inventor norte-americano que concebeu uma revolucionária câmara de combustão "rocket", muito mais eficiente, o engenheiro construiu os primeiros ecofogões em Honduras e Nicarágua, já em 1999. Rogério demonstra que, com um gasto aproximado de 1,3 quilos de lenha por hora, o fogão ecológico mostra sua eficiência ao gerar mais energia com a mesma quantidade de lenha que um convencional, ou a mesma energia com menos lenha, e ainda produzindo até 90% menos fumaça. "Foi toda uma revolução no modo de cozinhar com a lenha. As pessoas, no início, não acreditavam que aquele fogão compacto e de boca pequena pudesse cozinhar, assar e ainda esquentar água com serpentina, com tão pouca lenha e sem nenhuma fumaça dentro de casa. Mas, pouco a pouco, se surpreenderam."

Em 2003, quando regressou ao Brasil, Rogério montou a fábrica de fogões a lenha ecológicos em Belo Horizonte, e hoje tem clientes em todo país, além de continuar as atuações sociais com o público carente em áreas rurais. A produção é de aproximadamente 50 fogões por mês, que variam entre R$ 299 e R$ 1,3 mil, sendo que em uma década a empresa já entregou um número arrendondado de sete mil peças. O profissional batalha ainda para transformar o fogão a lenha em um bem cultural imaterial de Minas Gerais.

Na casa de Ana Cristina e Rodrigo em BH, o fogão a lenha ecológico dá o gosto do interior na cobertura - Arquivo Pessoal/Divulgação Na casa de Ana Cristina e Rodrigo em BH, o fogão a lenha ecológico dá o gosto do interior na cobertura
O servidor público Rodrigo Costa Ribeiro e a professora Ana Cristina de Jesus Melo são clientes da Ecofogão. Ao mudar para um apartamento de cobertura na Região Centro-Sul de Belo Horizonte, onde estão desde o último dezembro, eles queriam aproveitar melhor a área aberta superior do imóvel, mas não gostavam da ideia de ter uma churrasqueira comum. O casal conta que adora receber os amigos e a família em casa, cozinhar e se reunir à mesa, e a chance de adicionar no ambiente um fogão a lenha caiu como uma luva.

A escolha pelo modelo ambientalmente responsável surgiu, além da beleza, pela praticidade e o baixo custo, ficando adequado mesmo em um apartamento. A lenha, revelam, eles conseguem em um parque próximo, e garantem que, gastando muito menos combustível e com acabamento resistente às mudanças do tempo, o produto é tudo que lhes foi prometido e sempre agrada quem chega como uma boa novidade. "Morando na cidade, é tão difícil você encontrar um cantinho para relaxar, e o fogão nos trouxe isso. Você fica ali cozinhando lentamente, conversando sem pressa, e a sensação é de estar em outro lugar, longe da agitação urbana. É uma delícia. A casa fica com um cheirinho gostoso de interior."

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