Preciclagem descobre novos usos aos espaços, prevendo-os desde o início

Arquiteto defende o conceito de preciclagem para projetos que procuram, desde sua concepção, dar possibilidades complementares à função original de um ambiente, promovendo a sustentabilidade e a otimização de recursos

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postado em 28/10/2014 08:17 Carolina Cotta /Estado de Minas
Biovillas/Divulgação


O nome dá pistas: a “preciclagem” permite descobrir novas funções de objetos ou materiais, prolongando e enriquecendo sua vida útil, mas tudo isso, ao contrário da reciclagem, é feito no início do processo. O conceito, defendido pelo arquiteto Pedro Barata, da Mar Arquitetura, guarda outra diferença com a reciclagem, que, além de aparecer no final de um ciclo de vida, procura possibilidades alternativas à função original. A preciclagem, por sua vez, busca possibilidades complementares. A reciclagem de edifícios e espaços para novas funções, caso de fábricas antigas que viram museus, coberturas abandonadas que se converte em jardins, antigas trilhas de trem transformadas em pistas de caminhada, já é comum. Já a preciclagem propõe pensar nessas hipóteses desde o início dos projetos dos espaços e edifícios, descobrindo em cada caso uma ou várias funções extras latentes.

O termo, contudo, utilizado para facilitar a comunicação desse objetivo, não define um movimento nem é utilizado de forma uniforme. O arquiteto Bjarke Ingels, por exemplo, fala em infraestrutura social para descrever método semelhante. Para Pedro Barata, um dos participantes na representação oficial de Portugal na atual Bienal de Arquitetura de Veneza, um arquiteto tem uma posição privilegiada porque participa de forma decisiva no início da vida dos espaços que projeta. “Assumindo uma postura próativa, curiosa e generosa, ele pode revelar ao seu cliente e à sociedade um edifício que acumule várias funções não previstas na encomenda original. Isso permite que o cliente potencialize o seu investimento e que a cidade ganhe novos espaços, definindo uma relação entre público e privado mais rica.”

Centro Administrativo

Em Belo Horizonte, um dos exemplos de preciclagem é o projeto do novo centro administrativo do município, que terá todo o seu perímetro preenchido por rampas para circulação de bicicletas até o topo, vencido em concurso por Gustavo Penna Arquiteto e Associados. A Mar Arquitetura também usa o conceito no centro de treinamento de tênis do Reserva Real, em Jaboticatubas, na região metropolitana, onde a grande superfície de tela em volta das quadras é também uma tela para publicidade. Outros exemplos são o Museu da Imagem do Som, em construção em Copacabana, no Rio de Janeiro, onde a calçada portuguesa subirá em escadas pelo exterior da fachada, como passeio publico, até a cobertura. Lá em cima, um jardim e auditório ao ar livre ficarão, assim, disponíveis para todos. Fora do Brasil, um exemplo é a Incineradora, em Copenhague, com uma pista de esqui em uma cobertura.

Segundo Pedro, no século passado, Le Corbusier já defendia o aproveitamento duplo das coberturas planas dos edifícios como espaços de uso coletivo. “Recentemente, muitos dos projetos premiados em concursos internacionais têm a preocupação em tentar oferecer uma função não prevista”, explica. Outro projeto assinado pela Mar Arquitetura usando preciclagem é a portaria do Condomínio Biovillas, no empreendimento Reserva Real, em Belo Horizonte. “Embora fora do nosso suposto raio de ação, reparamos que estava previsto no perímetro do condomínio uma faixa de calçada portuguesa, com 2.500 metros lineares de comprimento, que não dava acesso a qualquer casa. Desenvolvendo o projeto da portaria com uma suave rampa de cada lado, propusemos substituir a calçada prevista por uma pista de cooper que, passando por cima da portaria, poderia seguir em volta de todo o condomínio. O incorporador gostou e aprovou a proposta, que já foi construída, passando a oferecer aos clientes um novo equipamento desportivo. Além disso, ficou mais barato, porque o metro quadrado da pista é mais em conta que a calçada portuguesa.”

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