Projeto transforma favela no Rio de Janeiro pelo poder das cores

"A favela mais colorida da cidade" acaba de receber nova pintura dentro de um conjunto de ações que estende o significado literal das tintas

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postado em 31/03/2015 08:04 / atualizado em 30/03/2015 18:32 Joana Gontijo /Lugar Certo
Joana Gontijo/EM/D.A Press


Muitas vezes a alegria vem de coisas simples, principalmente quando nasce de boas intenções e grandes atitudes. Mudar a pintura de uma construção, por exemplo, pode parecer algo corriqueiro, mas, dependendo da proporção da ideia, além de deixar as paredes bonitas, acaba significando um alcance maior, que chega ao interior das pessoas. É o que está ocorrendo em uma favela no Rio de Janeiro. No Santa Marta, onde a implantação do programa de pacificação pela polícia, em 2008, praticamente apagou a violência, a transformação também acontece através das cores, cujo poder tem melhorado o dia a dia de uma comunidade inteira.

A favela Santa Marta já é mundialmente famosa pelo colorido - Joana Gontijo/EM/D.A Press A favela Santa Marta já é mundialmente famosa pelo colorido


O Tudo de cor para você, da Tintas Coral, é que começou tudo isso, ainda em 2010, e, no último dia 23, os cerca de 6 mil habitantes receberam mais um presente. A empresa acaba de inaugurar, no alto do Morro Dona Marta, uma pintura artística comemorativa aos 450 anos da cidade maravilhosa, e a solenidade de entrega teve presenças ilustres. O clima chuvoso não conseguiu atrapalhar a atmosfera feliz da tarde de segunda-feira, quando o padrinho do projeto em terras cariocas, Gustavo Kuerten, deu seu carimbo à obra de Paulo Consentino com toda simpatia que lhe é peculiar, ao lado do artista e seu colaborador local Swell Demuner, do presidente mundial da AkzoNobel Tintas Decorativas, Ruud Joosten, do presidente da Tintas Coral, Jaap Kuiper, do presidente da Associação de Moradores do Santa Marta, José Mário Hilário, e executivos.

Inauguração da nova pintura no morro teve presenças de peso - Joana Gontijo/EM/D.A Press Inauguração da nova pintura no morro teve presenças de peso


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“Vocês estão levando cor para a alma das pessoas. O projeto consegue tocar a autoestima, fazer com que os moradores acreditem mais na vida e saibam que há alguém que tem carinho por eles. Para mim, que chego sempre em momentos de celebração como esse, é um privilégio estar aqui com essa criançada ao redor, ver o entusiasmo de todo mundo”, disse o tricampeão de Roland Garros na ocasião, parabenizando aos envolvidos pelo sucesso de um trabalho que no Rio de Janeiro, para ele, é simbólico e tomou uma grandiosidade mundial.

Joana Gontijo/EM/D.A Press


Ao lado do campinho de futebol no topo do morro, a intervenção artística em uma parede de 18 metros quadrados é uma visão vibrante do autor acerca da vivacidade arquitetônica da comunidade junto ao panorama igualmente belo do Rio de Janeiro, com o Pão de Açúcar e o Corcovado. Paulo Consentino, que pela primeira vez realizou uma obra em uma favela, e ainda não tinha trabalhos na capital fluminense, faz uma representação da cidade, explica, retratando a clara transição que existe entre o Morro Dona Marta, com suas construções coloridas, e a natureza, já que o lugar está se tornando uma referência através das cores, nas palavras do artista. “Explorei o jogo entre os tons variados das casas, com o verde da mata e uma paisagem do Rio. Só tenho a agradecer a maneira carinhosa com que fui recebido pela comunidade, pelos moradores, pelas lideranças e também pela Coral. Foi uma alegria gigante fazer essa pintura, um momento muito bacana. Os dias que passamos aqui foram realmente especiais para mim e minha equipe.”

Guga e os artistas Paulo Consentino e Swell Demuner - Joana Gontijo/EM/D.A Press Guga e os artistas Paulo Consentino e Swell Demuner

Ações começaram na favela em 2010 - Joana Gontijo/EM/D.A Press Ações começaram na favela em 2010


O evento marcou ainda a divulgação de um enorme mutirão agendado para 15 de agosto com 450 voluntários, também parte das comemorações, que vai colorir uma quantidade ainda maior de construções na favela Santa Marta - e o Guga já vestia a camisa de voluntário número um. “Na minha carreira no tênis, o que tinha de mais belo era no sentido de tocar quem estava há milhares de quilômetros de distância e trazer orgulho para o nosso país, crença, fé, satisfação por ser brasileiro. A cor alcança com o conteúdo certo, e a Coral é uma empresa que se preocupa com o equilíbrio mais justo na sociedade, pensando nas pessoas”, acrescentou.

Trabalho de grande alcance

O desenho recém-inaugurado se une às outras iniciativas de arte que o projeto da Coral imprimiu nos muros e becos do Santa Marta, no que é uma extensão da pintura das casas propriamente dita. Desde quando foi pintada a Praça do Cantão, na entrada, há cinco anos, o trabalho se desmembrou no Tudo de cor para o Rio de Janeiro - Santa Marta, iniciado em 2012, com um caráter forte de continuidade e engajamento dos moradores, de voluntários de fora da favela e até estrangeiros. A iniciativa já mudou a coloração de 302 edificações, até dezembro do ano passado, adotou a laje que ficou internacionalmente conhecida pela presença do astro Michael Jackson com uma importante revitalização, e não tem prazo para terminar. No palco sem conseguir esconder seu contentamento, o presidente da Associação de Moradores do Santa Marta agradeceu pela obra artística como mais um incentivo que fortalece o sonho de ver a favela toda colorida. “Temos nos empenhado em cobrar dos governantes que façam o reboco das casas para que a Coral possa entrar com a tinta e colorir todo o Santa Marta, tirar essa poluição visual e melhorar nossa qualidade de vida”, ressaltou José Mário Hilário.

Além da pintura das casas, várias intervenções artísticas enfeitam a comunidade - Joana Gontijo/EM/D.A Press Além da pintura das casas, várias intervenções artísticas enfeitam a comunidade


E o próximo desafio, segundo Jaap Kuiper, é mesmo dar novas tonalidades a toda favela, antes das Olimpíadas em 2016. Mas, como frisou o presidente da Tintas Coral, o conjunto de ações da empresa na região tem um espectro amplo, e já engloba aspectos culturais, sociais, educacionais e econômicos. Com apoio do Senai, o Tudo de cor para você formou até agora 25 pintores profissionais na favela, e também vem desenvolvendo atividades com artistas e artesãos locais, como oficinas de reciclagem, além de visitas coordenadas com os guias de turismo que moram e trabalham na favela. Na área esportiva, a empresa vai patrocinar a copa de futebol amador da comunidade, outra coisa anunciada no acontecimento da última segunda-feira.

A laje do Michael Jackson também foi adotada pelo projeto - Joana Gontijo/EM/D.A Press A laje do Michael Jackson também foi adotada pelo projeto


“A cor tem transformado a favela, e isso nos dá muito orgulho. Queremos ajudar a dar um futuro melhor para o morro, mais feliz e sustentável. Cor impacta, é alegria, levanta o astral e gera otimismo. E nossa intenção é continuar levando a felicidade para as comunidades ao promover essas acupunturas urbanas, melhorar a vida das pessoas, o que agora é parte fundamental da missão da marca”, pontuou Jaap sobre o projeto iniciado em 2009 que já passou por 13 cidades brasileiras, pintou mais de 5 mil imóveis com mais de 650 mil litros de tinta, tocando diretamente a vida de cerca de 30 milhões de pessoas.

A revolução das cores

A guia de turismo Salete Martins comemora a melhora no próprio bem-estar dos moradores - Joana Gontijo/EM/D.A Press A guia de turismo Salete Martins comemora a melhora no próprio bem-estar dos moradores
A cearense Salete Martins, de 45 anos, mora no Dona Marta há 35 e, atualmente à frente de uma empresa de turismo na favela, leva dezenas de visitantes diariamente para conhecer os encantos do local. Ela, que já guiou estrelas internacionais da música e do cinema pelas ruelas inclinadas, sabe de perto como as intervenções da Coral influenciam positivamente na rotina no morro. “Hoje a favela está muito colorida, e isso melhora a autoestima do morador. Lá de baixo, ele vê sua casa e a identifica. A cor deixa as construções mais bonitas, e isso mexe com nosso bem estar. Pelo lado do turismo, que tem crescido muito por aqui nos últimos tempos, o projeto também é um grande incentivador. Os turistas ficam fascinados com a favela colorida, as casas e os painéis artísticos”, conta.

Swell Demuner é parceiro do projeto e ajuda a colorir o Santa Marta com sua arte - Joana Gontijo/EM/D.A Press Swell Demuner é parceiro do projeto e ajuda a colorir o Santa Marta com sua arte
Primeiro grafiteiro a chegar no Santa Marta, em 2006, e colaborador do projeto desde a ação de 2010, Swell Demuner, 26, tem quatro obras feitas a pedido da Tintas Coral na favela, onde também percebe a recente e intensa transformação. Ele, que colaborou com o painel de Paulo Consentino e se tornou seu amigo próximo, é quem, junto ao artista de rua Mario Band's, modificou pelos pincéis um muro na entrada da comunidade de 30 metros de comprimento por 3 de altura, e também assina outra grande pintura no topo do morro, em uma extensão de 12 x 3,5 metros, que virou parada para fotos. “A cor tem esse poder, essa energia, esse calor. Muda o visual, o estilo de vida. Pense uma mulher que acorda descabelada, toma um banho, faz uma maquiagem, e tudo muda, ela fica mais bonita. A mesma coisa acontece com a casa quando ganha cor, uma pintura, uma obra de arte. Infelizmente, a favela ainda não é totalmente limpa e urbanizada, mas já melhorou muito.”

E lá em cima, na parede renovada, os visíveis buracos de bala que guardam, sob a nova pintura, a memória de uma época diferente, são o sinal mais sensível da energia ativa das cores para superar o que é triste e estender sua esperança transformadora para um bem absoluto.

Joana Gontijo/EM/D.A Press


*A repórter viajou a convite da Tintas Coral

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