Arquitetura bioclimática

Recurso da arquitetura, ventilação natural é aliada contra o coronavírus

Manter os ambientes arejados é medida fundamental para barrar a doença

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postado em 12/08/2020 09:10 / atualizado em 12/08/2020 09:30 Joana Gontijo /Lugar Certo
Divulgação

A composição espacial dos ambientes pode ser uma boa aliada no combate e prevenção ao novo coronavírus. Um dos alicerces da chamada arquitetura bioclimática, a ventilação natural é um recurso que acaba se tornando fundamental para gerar locais mais confortáveis e, acima de tudo, saudáveis. Aproveitar as vantagens do vento, infinito, renovável e gratuito, como uma ajuda preciosa da natureza, faz com que os cômodos fiquem mais arejados, o que é um dos aspectos apontados por especialistas como importante para frear a propagação da COVID-19. Ainda mais quando da presença de idosos ou pessoas com doenças preexistentes.

Direcionada para esse sentido, a arquitetura é um auxílio para barrar problemas como a gripe, o H1N1, e agora também pode funcionar contra o coronavírus, se bem elaborada. Além de reduzir gastos energéticos, a ventilação natural também dispensa sistemas artificiais, como o ar condicionado, que muitas vezes acaba se tornando um meio para transportar microrganismos.

Para idosos, grupo de risco para a infecção pelo coronavírus, as doenças do aparelho respiratório são comuns, com a maior incidência ainda de males crônicos. E as mudanças drásticas de temperatura agravam esse quadro. Dentro de casa, a ventilação natural é um método que ameniza os efeitos nocivos da oscilação climática, um artifício benéfico à saúde, principalmente em época de pandemia.

A ventilação natural ajuda na prevenção de doenças viróticas, como é o caso do coronavírus, pois, ao favorecer a renovação do ar, reduz a possibilidade de disseminação do agente patológico. É o que explica o arquiteto Henrique Hoffman. "A ventilação natural ajuda a prevenir doenças respiratórias pelo fato do ar estar sempre renovado, o que é importante tanto para minimizar a propagação de vírus e bactérias, quanto para a qualidade interna do ar, já que, ao respirar, o organismo transforma oxigênio em gás carbônico. Há tempos atrás, era muito comum famílias inteiras se mudarem para cidades com boa qualidade de ar para tratamento de doenças respiratórias", ressalta Henrique.

O vento, quando bem aproveitado, continua, também auxilia no controle da temperatura, promovendo bem-estar e reduzindo a necessidade do uso de soluções mecânicas, como ar condicionado ou exaustores. "Optar pela ventilação natural ao invés de ar condicionado é extremamente importante para ambientes de trabalho e para quem está praticando home office", salienta.

A arquitetura bioclimática é o processo projetual que reduz o consumo energético e os impactos ambientais através de recursos disponíveis naturalmente. A ventilação natural é um de seus pilares. "Existem diversas estratégias para favorecer a ventilação natural dos ambientes. Por meio da arquitetura bioclimática, manter o espaço naturalmente ventilado e arejado deixa-o, além de saudável, também mais confortável", diz Henrique.

Dentre os processos de aplicação da ventilação natural, Henrique Hoffman cita estratégias: o chamado efeito chaminé se dá a partir de aberturas na parte mais baixa e na parte mais alta da casa (assim, o ar quente, menos denso, é repelido pelo ar frio por diferença de pressão, promovendo um ambiente mais ameno e ventilado); e a ventilação cruzada acontece quando existem no mínimo duas aberturas (portas ou janelas) em lados de paredes opostas ou adjacentes (de preferência nas que têm a direção do vento dominante), permitindo o fluxo cruzado de vento e a renovação do ar.

O arquiteto aconselha ainda ter janelas com básculas superiores, o que ameniza a sensação de 'estufa', mesmo quando a casa está toda fechada. "Sempre que possível, prefira janelas de abrir ao invés das de correr, pois, em geral, permitem 100% de sua área de ventilação, enquanto com as outras esse índice é de cerca de 50%, já que parte da abertura é vedada pela própria janela", ensina.

Mais uma dica é evitar adornos e outros itens de decoração próximos às janelas. Isso ajuda a não obstruir o vento e permite que as janelas fiquem abertas por mais tempo sem o risco de derrubar objetos, acrescenta o arquiteto. "Outro fator importante, mesmo em situações em que o cômodo não possua duas janelas, é fazer a ventilação cruzada indireta, através de portas e janelas abertas de outros cômodos da casa", recomenda.

Prédios fechados sem ventilação, com pé direito baixo, iluminação artificial durante o dia, e ventilação mecânica ou ar condicionado. Com essas condições, explica o arquiteto e sócio-diretor da Arqsol Arquitetura e Tecnologia, Sebastião Lopes, são locais que favorecem o desenvolvimento de vírus e bactérias nocivos ao ser humano, já que guardam durante a noite o ar viciado do dia anterior. "Na maioria das vezes, nossos prédios são 'doentes'. A ventilação natural é uma forte aliada para a prevenção do coronavírus e similares", diz.

A ventilação natural, cruzada ou permanente, continua o arquiteto, traz consigo o oxigênio, o alimento natural dos neurônios, gerando a sensação agradável de respirar um ar puro. "O verdadeiro habitat do ser humano é a natureza. A cidade é um ambiente artificial que, por não ter jardins e árvores, muitas vezes elimina os ventos que trazem o oxigênio que renova o ar, seja no interior dos prédios ou no exterior. As doenças respiratórias são provocadas muito pela falta desses ambientes ventilados e arejados durante o dia e a noite", elucida.

Em áreas urbanas, a poluição ajuda a agravar os problemas respiratórios. "Os prédios colados uns nos outros e ambientes fechados propiciam essas doenças em geral." Espaços ventilados, arejados e ensolarados, além de barrar bactérias e vírus, também destróem o risco de permanência do coronavírus, explica Sebastião. "Infelizmente muitos idosos moram em ambientes fechados, escuros, sem ventilação e iluminação naturais e com pouca incidência de raios solares", conta. Condições inadequadas justo para aqueles entre o grupo de risco para a COVID-19.

Segundo Sebastião, até então não há comprovação científica de que a climatização natural é um fator benéfico para ajudar portadores de doenças preexistentes. "Mas, de conhecimento comum, viver em um ambiente integrado com a natureza é um auxílio. Essa tem sido uma recomendação médica para tratamento de várias doenças", pondera. Uma ambientação mais próxima da natureza também se dá pela seleção de materiais, elementos e componentes construtivos.

"A ventilação natural ajuda o organismo a se manter saudável. Para o sistema imunológico, contribui no sentido de evitar contaminações. É um valor da natureza que ameniza os impactos da oscilação climática no organismo humano, seja qual for o vírus ou a bactéria a que estiver sujeito."

A arquiteta Maluh Amorim é especializada em projetos para a terceira idade. "É importante aproveitar ao máximo a ventilação e incidência solar da casa. Caso seja necessário o uso de ar condicionado e ventiladores, procure mantê-los limpos", explica. Ela salienta que, para os mais velhos, os ambientes mais propícios a causar danos respiratórios dentro de casa são o quarto e a sala de TV e, por isso, merecem atenção. "É importante ter uma casa sempre arejada, com boa ventilação, pois os ambientes ficam mais limpos e saudáveis. Por exemplo, um quarto que tem janelas abertas e onde o sol bate principalmente no período da manhã", ensina.

Algumas dicas simples aplicadas ao espaço físico da casa, ambientes comerciais ou de atendimento em saúde podem ser úteis durante a pandemia:

- O ambiente interno é propício à proliferação de qualquer tipo de bactérias e germes, incluindo o coronavírus. Ambiente ventilado é sinônimo de ambiente seguro

- É bom perseguir a ventilação natural em todos os cômodos. Mantenha sempre portas e janelas abertas

- Para favorecer a ventilação natural nos ambientes, uma dica é promover ou facilitar a existência de frestas ou aberturas que otimizem a entrada permanente de ar durante o dia e a noite

- As janelas devem ser transformadas para favorecer a ventilação natural. A posição do edifício ou da residência deve ser favorável à direção dos ventos dominantes, bem como favorecer a incidência dos raios solares

- A ventilação natural deve ser uma busca constante, principalmente em estabelecimentos públicos e locais de aglomeração de pessoas

- Em moradias compartilhadas com idosos, é fundamental manter o ambiente com circulação de ar natural. Retire todas as cortinas

- A ventilação deve ser garantida principalmente em dormitórios e áreas molhadas, como cozinha e banheiro

- Caso o ambiente não possua janelas, mesmo que de forma improvisada, sem esquadria, faça a abertura do vão e fechamento com microtela perfurada (dos tipos mosquiteiro ou galinheiro)

- Ambientes fechados com ar estagnado (ônibus, restaurantes, salões, quartos) são mais propícios à proliferação do vírus

- Induzir a circulação de ar, através da ventilação cruzada, renova o ar do ambiente naturalmente, e é um remédio eficaz contra a estagnação do ar

- O ar condicionado pode ser um vilão, pois, por trás da falsa sensação de segurança, criada pelo ar fresquinho, pode esconder um ar viciado e contaminado. Poucos têm seus filtros limpos ou substituídos semestralmente, como o indicado

- Evite restaurantes, lojas e pontos comerciais com climatização artificial. Ou solicite ao proprietário abrir as portas

- Em casa, tente levar seu almoço para varandas ou sacadas

- Em espaços de assistência em saúde, se possível, organizar uma espera ao ar livre ou em área com ventilação natural

- Prefira as janelas de abrir às janelas de correr

- Evite colocar adornos e outros elementos de decoração perto das janelas, a fim de não obstruir o vento. Dessa forma, as janelas podem também ficar mais tempo abertas sem o risco de derrubar objetos

- Quando não há mais que uma janela no cômodo, aplique a ventilação cruzada indireta, abrindo portas e janelas de outros ambientes

- É necessário criar aberturas, ou frestas de tamanhos diferentes em lados opostos de cada ambiente. Estas frestas favorecem a entrada do ar frio, pleno de oxigênio, que expulsa o ar quente existente. O ar frio, por ser mais denso que o ar quente, permanece no ambiente, gerando conforto térmico para os usuários

Tags: arquitetura bioclimática ventilação natural arquitetura coronavírus covid-19

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