Casas arejadas e ecológicas tem conquistado mais adeptos no DF

Telhado feito de terra e grama, paredes de barro, ambientes vazados para garantir ventilação natural e água de chuva armazenada. Essas são algumas características da bioconstrução, técnica que tem conquistado mais adeptos no DF

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postado em 11/07/2013 10:50 / atualizado em 11/07/2013 10:55 Thaís Paranhos /Correio Braziliense
 
Adriano Gonçalves, engenheiro florestal de 31 anos, na casa erguida no Setor Habitacional Tororó, onde vive com a família: baixo impacto ambiental e conforto proporcionados pela permacultura - Carlos Vieira/CB/D.A Press Adriano Gonçalves, engenheiro florestal de 31 anos, na casa erguida no Setor Habitacional Tororó, onde vive com a família: baixo impacto ambiental e conforto proporcionados pela permacultura
Viver em casa de barro já foi sinônimo de moradia antiga. Construir um banheiro seco ou reaproveitar a água da pia ou do chuveiro também pode causar estranhamento nas pessoas. Mas em tempos de inquietação quanto ao futuro do planeta, o Distrito Federal tem ganhado cada vez mais adeptos de soluções ecológicas para erguer moradias. A procura por alternativas ao modelo convencional de construção civil ajuda a desacelerar essa indústria e é responsável por 70% dos recursos extraídos da terra e por 50% da poluição ambiental no mundo.

As bioconstruções tornaram-se opção aos modelos de alvenaria, mas o proprietário deve seguir alguns critérios, como participar ativamente da construção da casa e usar materiais locais, naturais e renováveis para erguê-la, como barro e madeira. “Mas tudo depende da disposição e da coragem de quem for fazer, a pessoa precisa acreditar nisso, porque implica uma mudança profunda”, explica o engenheiro florestal Cláudio Jacintho, adepto da permacultura — sistema que cria ambientes produtivos e sustentáveis em harmonia com a natureza. Para ele, não existe uma casa ecológica, mas sim uma conduta ecológica dos moradores. “As pessoas têm medo da natureza. Elas precisam mudar essa concepção e entender que o ser humano faz parte desse ambiente”, defende.

Com a mesma técnica, o engenheiro florestal Adriano Gonçalves Caceres, de 31 anos, ergueu a casa onde mora, no Setor Habitacional Tororó. Ele fez o curso de permacultura e começou a trabalhar na obra em 2007 com a ajuda de amigos e a orientação de gente experiente. “A ideia era fazer um ecoespaço, para ter baixo impacto ambiental e podermos habitar de forma confortável. Tudo foi pensado, desde o posicionamento da casa para aproveitar a luz do sol e a ventilação natural e evitar gastos com energia até o banheiro seco, que não gasta água”, contou.

A casa onde moram também a mulher de Adriano, a pedagoga Ana Paula Boquadi, de 24 anos, e a filha do casal, Ayme Boquadi Caceres, de 1, foi construída em superadobe, usando sacos de polipropileno com terra vermelha compactada. “Nossa parede possui 50cm de largura, já tem função estrutural e podemos dispensar as vigas de concreto, ou seja, já é uma economia”, aponta. Na outra parte da residência, Adriano ergueu as paredes com tijolos ecológicos, fabricados com uma parte de terra vermelha para uma de cimento que não precisam ser cozidos. Dessa forma, não emitem gás carbônico. O telhado foi feito com madeira de reflorestamento. “Também temos um banheiro seco, um telhado verde e o nosso esgoto vai para a fossa bananeira, sem contaminar o lençol freático.” Em vez de o esgoto ser jogado no lençol freático e despejado em rios e lagos, usa-se o ciclo de bananeiras. Ele é levado até o jardim, no tanque onde são plantados alguns exemplares da planta, assim, elas aproveitam os nutrientes.

O administrador Leandro Jacintho, de 32 anos, morador do Setor Habitacional Tororó, usou as técnicas aprendidas pelo irmão Cláudio para erguer a casa onde mora com o filho, Luan Jacintho, de 9. Ele tirou o barro do próprio terreno para erguer a casa. No buraco que restou, construiu um tanque com capacidade de 70 mil litros para armazenar a água da chuva. O líquido cai na calha e, em seguida, no reservatório e abastece a casa inteira. “Estamos na contramão do desenvolvimento econômico, que usa um recurso que é escasso. Imagina a minha economia doméstica daqui a uns anos sem ligar lâmpadas durante o dia e sem ar-condicionado ou ventilador e com economia de água. A bioconstrução traz esses desafios e a busca de soluções”, destacou.

O veterinário Antonio Fernando Fregonesi, de 43 anos, morador do Grande Colorado, também encontrou uma solução ecológica para construir a casa onde vive com a mulher e seis filhos. A residência foi erguida com material de demolição: ele aproveitou tijolos, madeiras, esquadrias e móveis de um casarão de Ribeirão Preto (SP) com mais de 120 anos que foi colocado abaixo. Não precisou comprar um material sequer. “Montamos um quebra-cabeça e fizemos adaptações com o que tínhamos à disposição. É uma construção ecológica, e acho que contribui com o meio ambiente”, conclui.

Condomínio

Se a bioconstrução representa para alguns uma mudança mais profunda, outras pequenas soluções ecológicas podem transformar o ambiente. Em Águas Claras, um condomínio comprou um equipamento para tratar a água das pias e dos chuveiros dos apartamentos e reutilizar nos vasos sanitários e na lavagem de carros e calçadas. Mas até hoje o equipamento não foi ligado por falta de autorização da Companhia de Saneamento Ambiental do Distrito Federal (Caesb). Até dezembro do ano passado, não havia norma para a reutilização de água. “Se estivesse funcionando, economizaríamos de 15 mil a 20 mil litros”, calculou o síndico, Luiz Carlos Alimandro Júnior, de 46 anos.

A Companhia de Saneamento Ambiental do Distrito Federal (Caesb) publicou uma norma para regularizar essa iniciativa. Quem quiser adotar a medida precisa apresentar um projeto na Caesb com a identificação de um responsável técnico pelo funcionamento do sistema alternativo. “No Brasil, não existe regulamentação, e a norma trata das estruturas mínimas que o local deve ter, porque precisamos atestar a qualidade da água”, explicou o gerente de Fiscalização e Serviços do Centro-Norte da companhia, Geórgenis Trigueiro Fernandes. Ele lembra que água reutilizada não serve para consumo, e a estrutura para captação e tratamento deve ficar afastada do sistema de água potável. “O interessado deve protocolar um projeto na Caesb para serem feitas análises de padrões de qualidade”, completou.

Vento a favor

Na bioconstrução, as casas são erguidas levando-se em conta o nascer do Sol e a direção do vento predominante. Dessa forma, a moradia tem luz e ventilação naturais, e os habitantes não precisam usar ventiladores ou ar-condicionado. O telhado verde reduz a temperatura interna. Antes de receber a terra e a grama, a laje precisa ser impermeabilizada. As casas ecológicas são feitas de barro. Existem, pelo menos, sete técnicas de construção com terra crua para erguer as paredes. Já os pilares são de madeira. Nas paredes, é possível colocar pedaços de vidro para aumentar a entrada de luz. O barro é isolante térmico e mantém uma temperatura agradável. As janelas são amplas, e os cômodos, vazados para garantir a ventilação natural. Para evitar o desperdício de água, a moradia tem banheiro seco. Nessa construção, debaixo do assento do vaso sanitário, há um compartimento impermeável para onde vão os dejetos humanos. Em vez de apertar a descarga, o morador joga uma porção de serragem. No espaço, há uma compostagem, e o adubo pode ser usado em até seis meses.

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